Boa noite, habladores. Hoje trago mais um resenha de um filme de terror, dessa vez, coreano. O cinema de terror asiático nunca precisou de muito para nos tirar o chão. Uma porta que range, um corredor sem fim, uma câmera que capta o que os olhos prefeririam não ver. Gonjiam: Hospital Maldito, do diretor sul-coreano Jung Bum-shik, entende isso e usa cada centímetro de um dos lugares reais mais perturbadores do mundo para nos lembrar por que ainda temos medo do escuro. Baseado no lendário Hospital Gonjiam, em Gwangju, eleito pela CNN como um dos locais mais assustadores do planeta, o filme chegou às telas coreanas quebrando recordes de bilheteria para o gênero. Mas será que a eficiência dos sustos é suficiente para superar a sombra de seus antecessores? Peguei minha lanterna, entrei pelos corredores e fui descobrir, vamos aos post.
Ficha Técnica
Nome: Gonjiam - Hospital Maldito
Gênero: Terror, Found Footage
Origem: Coreia do Sul
Ano: 2018
Duração: 1h e 34 minutos
Diretor: Jung Bum-shik
Sinopse: A equipe de uma série de terror viaja para um dos lugares mais assustadores do mundo, um hospício abandonado na Coreia, fonte de histórias arrepiantes. Eles queriam transmitir ao vivo do local, mas logo fica claro que essa não é uma boa ideia.
Inaugurado nos anos 1970 e fechado abruptamente em 1982, o real Hospital Gonjiam, localizado em Gwangju, na Coreia do Sul, foi eleito pelo CNN Travel como um dos lugares mais assustadores do mundo. Esse substrato de terror genuíno é a matéria-prima sobre a qual Jung Bum-shik constrói seu longa, lançado em 2018. A premissa é simples: uma equipe de criadores de conteúdo de horror invade o hospital abandonado para uma transmissão ao vivo, em busca de visualizações e fama fácil. O que encontram, é claro, vai muito além do planejado.
"Gonjiam domina a arte do medo acumulado. Quando o filme decide apertar o gatilho, o resultado é genuinamente sufocante."
O grande trunfo de Gonjiam está na construção paciente e competente de atmosfera. A primeira metade é quase clínica na maneira como instala a tensão a câmera está em todo lugar, as reações dos personagens são críveis, e o hospital em si é um ator à parte. A produção tirou proveito máximo da locação, seja real ou reconstituída: corredores sem fim, portas trancadas do lado de dentro, pichações que levantam mais perguntas do que respostas.
A decisão de estruturar o filme como uma transmissão ao vivo funciona muito bem dentro da lógica do found footage, ancorando o horror na contemporaneidade da cultura de streaming e influenciadores digitais. Existe uma camada de crítica velada sobre a banalização do perigo em busca de engajamento que, embora não seja explorada a fundo, dá ao roteiro uma textura extra.
Quanto ao terror em si: ele funciona. Os últimos trinta minutos são de uma eficácia brutal. A câmera perde o controle, os personagens se fragmentam, e a edição adota um ritmo frenético que transmite genuinamente a sensação de colapso. Algumas sequências especialmente as que envolvem a Sala 402 ficam na memória com uma persistência incômoda.
O problema de Gonjiam não é o que ele faz de errado, mas o que ele opta por não fazer de diferente. O filme é o mais recente de uma linhagem que inclui REC (2007), A Bruxa de Blair (1999) e, mais diretamente, Grave Encounters (2011) este último com a mesma estrutura de câmeras espalhadas e horror que se instala por camadas até explodir. A comparação não é acidental: Gonjiam parece ter estudado esses predecessores com lupa. Isso não é necessariamente um pecado, mas torna previsível a experiência para qualquer espectador familiarizado com o subgênero.
Os personagens também sofrem do mal típico do found footage: são funcionais demais para serem memoráveis. Sabemos quem vai correr, quem vai cair, quem vai abrir a porta que não devia ser aberta. A narrativa resiste à tentação de desenvolver qualquer arco emocional mais profundo, o que enfraquece o impacto das perdas quando elas chegam.
Pontos fortes
- Atmosfera construída com maestria
- Locação que é um personagem em si
- Terceiro ato intenso e eficaz
- Premissa da transmissão ao vivo bem aproveitada
Pontos fracos
- Fórmula sem atualizações significativas
- Personagens rasos e descartáveis
- Primeiro ato lento demais para o que entrega
- Nenhum elemento distintivamente coreano no horror
Gonjiam: Hospital Maldito é um found footage bem-executado que cumpre com honestidade o que promete: vai te assustar. Mas para quem já percorreu os corredores de REC ou perdeu o sono com Grave Encounters, a experiência tem gosto de déjà-vu. Vale assistir de preferência no escuro com a consciência de que você está em mãos competentes, mas não revolucionárias.
Esse filme é um exercício sólido dentro de um subgênero já bastante definido e essa é exatamente sua maior força e sua maior limitação.
O filme acerta onde importa: o medo funciona, a locação é opressiva, e o terceiro ato entrega o caos prometido com eficiência. Jung Bum-shik claramente domina a gramática do found footage. O problema é que ele faz exatamente isso, reproduz a gramática sem reescrevê-la.
A comparação com o universo de Grave Encounters, com suas câmeras estáticas e horror que se acumula em camadas antes de explodir, é inevitável e justa. Gonjiam não esconde as influências, não as ressignifica com nenhum elemento cultural coreano marcante, e isso pesa para um espectador que já percorreu esse terreno.
Dito isso, para quem é menos familiarizado com o subgênero ou para quem simplesmente quer uma noite de sustos de qualidade, o filme entrega com competência. A Sala 402, em especial, vai incomodar por dias.
Nota 7,0/10
★★★★★★★☆☆☆
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