Quando o terror argentino decidiu parar de imitar Hollywood
e encontrar sua própria voz, nasceu algo genuinamente perturbador. O Mal
que nos Habita, de Demián Rugna, é exatamente esse filme, ousado na concepção,
sólido na execução técnica e, por vezes, sabotado por suas próprias escolhas
narrativas.
O filme reinventa o subgênero da possessão com uma
brutalidade quase clínica. Aqui não há padres murmurando latim, não há cruzes e
água benta como escudo. A possessão é tratada como uma praga biológica, algo
que contamina o entorno, que se espalha pelo contato e pela negligência humana.
É uma metáfora poderosa, e Rugna a desenvolve com mão firme nos dois primeiros
atos.
A ausência de jumpscare é uma declaração de intenções. O
diretor prefere o horror que rasteja, que se instala no estômago do espectador
com cenas que perturbam pela lógica interna do seu mundo, não pelo susto fácil.
Tecnicamente, o filme é irrepreensível: fotografia sombria sem ser afetada, som
que amplifica o desconforto e uma direção de arte que transforma o interior da
Argentina rural em território genuinamente ameaçador.
"Rugna constrói um universo de regras rígidas para o sobrenatural, e aí reside tanto o maior mérito quanto o maior problema do filme."
Chegamos, porém, ao nó da questão e é um nó que afrouxa
consideravelmente o impacto do filme. O protagonista Pedro é vítima de uma das
falhas de roteiro mais clássicas e frustrantes do gênero: o personagem sabe das
regras, recebe as regras, tem as regras explicadas por uma especialista com
autoridade incontestável dentro da narrativa e as ignora de forma sistemática,
sem motivação plausível.
Ato 1 — Pedro estabelecido
Observador. Maduro. Racional.
É ele quem lê a situação, toma decisões e puxa o irmão indeciso para a ação. O roteiro o posiciona deliberadamente como o adulto da dupla.
Ato 1 — O irmão como contraste
Hesitante. Sem pulso firme.
Existe narrativamente para ressaltar as qualidades de Pedro, espera o irmão decidir, não age por conta própria. Um espelho que valoriza o
protagonista.
Ato 3 — Pedro no desfecho
Ignora especialista. Acredita em crianças amaldiçoadas.
A mesma pessoa que demonstrou leitura de contexto e
maturidade decide confiar nas palavras de crianças que a própria especialista a
maior autoridade do universo do filme, explicitamente identificou como
instrumentos do demônio.
Esse é o coração do problema. Não é sobre Pedro ser
"esquentado,” personalidades impulsivas cometem erros, e isso é
dramaticamente válido. O ponto é que o erro dele não é um ato impulsivo: é uma
decisão que vai na contramão de tudo que foi estabelecido sobre ele. Um
personagem impulsivo age rápido demais. Pedro age errado, no momento em que
tinha todas as informações necessárias para agir certo, sem que o roteiro
ofereça qualquer gatilho emocional ou psicológico que justifique a virada.
"O mais perturbador não é que Pedro erre, é que o erro dele contradiz quem ele é. Rugna criou um arquétipo racional e, quando precisou do caos, simplesmente esqueceu desse arquétipo."
A situação desesperadora tampouco salva a justificativa. O
desespero, no cinema de terror, costuma ser um catalisador para decisões
instintivas, fugir quando deveria lutar, atacar quando deveria esperar. O que
Pedro faz é diferente: é uma escolha deliberada de acreditar numa fonte que o
próprio universo do filme já desqualificou. Crianças amaldiçoadas, segundo a
lógica interna estabelecida pela especialista, são vetores do mal, não
testemunhas confiáveis. Confiar nelas não é desespero. É uma falha de
raciocínio inexplicável num homem que foi apresentado como justamente o mais
racional em cena.
"A impressão que fica é de que Rugna sabia onde queria chegar, o colapso final, mas não soube construir o caminho até lá sem apelar para a incompetência artificial do protagonista."
Há um termo para isso no jargon da análise narrativa: o
personagem torna-se um instrumento do plot, não um agente dele. Pedro não age;
ele simplesmente falha no momento certo para que o filme chegue ao seu destino.
E quando o espectador percebe esse mecanismo, parte da tensão se dissolve. O
medo dá lugar à irritação.
O equívoco narrativo dói mais porque o resto do filme é
genuinamente notável. A reinvenção do subgênero de possessão, tratada aqui como
uma praga ambiental, algo que contamina o entorno e se alastra pela negligência
coletiva, não pela fraqueza individual, é uma das ideias mais frescas que o
terror sobrenatural produziu em anos. E tecnicamente o filme é quase irrepreensível.
Os pontos fortes do filme:
- Mitologia de possessão completamente original
- Terror atmosférico sem jumpscare
- Construção de personagens sólida, até quebrar
- Direção técnica de alto nível
Os pontos fracos do filme:
- Pedro contradiz seu próprio arquétipo no clímax
- Confia em crianças que o filme inteiro desqualificou
- Catástrofe final depende da incoerência do protagonista
- Roteiro sacrifica o personagem para salvar o plot
Um filme que merecia ser melhor do que é, e que é
suficientemente bom para que essa frustração doa. O universo que Rugna
construiu é rico demais para ser sustentado por um protagonista que o roteiro
desfaz quando mais importa.
Por que ainda vale assistir: a originalidade da mitologia é real. Tratar possessão como contaminação ambiental, é uma ideia muito bem executada nos dois primeiros atos. O filme merece crédito por isso, mesmo com as falhas de roteiro.
Nota: 7,0/10
★★★★★★★☆☆☆




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