25/05/2026

Luz, Câmera e Ação #1 - Escravos de Satã - Resenha


Boa noite, habladores. Hoje irei iniciar a primeira postagem desse blog trazendo a resenha de um filme de terror indonésio que assisti a um tempo atrás. O filme é promissor no começo, mas no terceiro ato ele tropeça e decai a qualidade. O ponto central da crítica é que essa escolha não é apenas um erro de gosto é uma quebra de contrato com o espectador. O filme passa a maior parte do tempo construindo uma lógica de medo espiritual, etéreo, baseado na presença invisível e na ameaça que a imaginação completa. E o terceiro ato para o encerramento quebra essa dinâmica. Vamos ao post.


Ficha Técnica
Nome: Escravos de Satã (Pengabdi Setan)
Gênero: Terror
Origem: Indonésia
Ano:2017
Duração: 1h e 47 minutos
Diretor: Joko Anwar





Sinopse: Após a morte prematura da matriarca, uma família passa a vivenciar uma série de eventos sobrenaturais, culminando em uma noite de horror caótico, em que segredos são revelados e quatro irmãos se defendem de um espírito maligno que os persegue.





Quando Joko Anwar resolveu revisitar e reimaginar o clássico do terror indonésio de 1980, a expectativa era grande. E, pelo menos na primeira metade, ele cumpre a promessa. Escravos de Satã abre com uma atmosfera densa, quase sufocante, o tipo de terror que vive nas sombras, nos rangidos de porta, no silêncio entre um ruído e outro. A fotografia é sombria e eficiente, o som faz o trabalho sujo com maestria, e a família no centro da história carrega o peso de uma maldição que parece real, palpável.

A figura da mãe morta, surgindo como presença espectral, é construída com paciência e genuíno senso de ameaça. Aqui, o filme entende algo fundamental que muitos filmes de terror esquecem: o que não se vê assusta muito mais do que o que se mostra.

"Na primeira metade, Anwar demonstra que sabe construir tensão com economia e precisão. É terror de verdade, aquele que te deixa desconfortável muito antes de qualquer susto acontecer."

E então vêm os zumbis.

É difícil não sentir uma pontada de decepção quando o filme decide abandonar o sobrenatural etéreo que tão bem havia construído e entra de cabeça num subgênero completamente diferente. A introdução de mortos-vivos no clímax não apenas soa como uma mudança de tom injustificada, ela destrói a coerência do universo que a própria narrativa havia estabelecido. O terror de espectros funciona pela ambiguidade, pelo não-dito. Zumbis exigem o oposto: corpos, ação, confronto físico.

O resultado é um filme que parece ter dois roteiros diferentes costurados pela metade. O que era uma experiência de angústia espiritual vira quase um filme de ação de baixo orçamento, e nenhum dos dois gêneros se beneficia da fusão. A tensão que levou uma hora para ser construída se dissipa em questão de minutos.

Os pontos fortes desse filme são: 

  • Atmosfera densa e eficaz
  • Design de som impecável
  • Construção lenta de tensão
  • Fotografia envolvente
  • Atuações sólidas

E os pontos fracos desse filme são:

  • Virada brusca para zumbis
  • Incoerência de tom no final
  • Clímax desperdiçado
  • Tensão desfeita no ato final

Há um filme excelente dentro de Escravos de Satã, e ele está nos seus primeiros dois terços. Se Anwar tivesse mantido a fidelidade ao sobrenatural que tão bem havia cultivado, poderíamos estar falando de um dos grandes títulos do terror asiático moderno, ao lado de Médium e Invocação do Mal, que não é asiático, mas um excelente filme de terror. Em vez disso, o que temos é um filme que se sabota no momento mais importante: quando o medo deveria atingir seu pico, ele troca o psicológico pelo mecânico.

Conclusão, vale a sessão pela primeira metade, mas prepare-se para a frustração do desfecho. Escravos de Satã é um exercício brilhante de construção atmosférica que perde a coragem quando mais precisava dela, e opta pelo caminho mais fácil num momento em que o caminho difícil prometia algo memorável. O filme possui continuação que foi lançado em 2021, se não me falha a memória, se chama Escravos de Satã - A Comunhão, porém, não sei se darei continuidade assistindo o segundo filme, visto que fiquei bem decepcionada com o primeiro.


Nota 6,0/10



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