Boa noite, habladores. Mais uma resenha de um filme de terror, que assim como o anterior é coreano. E tenho uma pergunta a vocês, o que você faz quando o monstro tem o rosto de quem você ama? Existe um terror mais antigo do que qualquer criatura das sombras, o terror de olhar para alguém familiar e não reconhecer mais quem está por trás dos olhos. O cinema coreano conhece bem esse abismo. As Faces do Demônio chega prometendo habitá-lo: um demônio que não precisa arrombar portas, porque já entrou pela frente, vestindo a pele de quem você nunca duvidaria. Uma premissa que poderia ser devastadora. Um filme que escolhe, tragicamente, não ser.
Ficha Técnica
Nome: As Faces do Demônio
Gênero: Terror
Origem: Coreia do Sul
Ano: 2019
Duração: 1h e 53 minutos
Diretor: Hong Seon Kim
Sinopse: A obra acompanha uma família aterrorizada por um espírito maligno metamorfo. A entidade assume a aparência de diferentes membros da casa, instaurando uma paranoia mortal onde ninguém sabe em quem confiar, forçando um padre exorcista a tentar salvar seus parentes.
Há filmes que falham por falta de ideia. As Faces do Demônio pertence a uma categoria mais frustrante: os que falham por excesso de potencial desperdiçado. Sua premissa é sólida e suas peças iniciais são bem posicionadas, um demônio que não assombra de fora, mas infiltra-se por dentro, assumindo rostos e vozes dos próprios familiares. A ameaça não vem da escuridão lá fora. Vem do rosto da pessoa que você mais ama.
Nos primeiros atos, o filme demonstra consciência disso. A tensão da dúvida, aquele olhar entre dois irmãos que já não sabem se confiar um no outro, é exatamente o tipo de horror psicológico que o cinema coreano executa com maestria quando está em seu melhor momento. O problema é que o filme abandona essa promessa antes de desenvolvê-la.
A figura mais interessante de As Faces do Demônio é, sem dúvida, o padre. E é exatamente por isso que sua subutilização dói tanto. O filme estabelece, logo de saída, uma informação de peso: ele já enfrentou esse demônio antes, e perdeu. Uma criança morreu. O trauma dessa derrota deveria ser o combustível emocional de toda a narrativa e meio que é só que de uma forma podre e pouco profunda.
Um padre que carrega a culpa de uma criança morta, convocado para enfrentar o mesmo demônio décadas depois, dentro da própria família, isso é material para um grande filme de terror. É também, infelizmente, material que As Faces do Demônio escolhe não explorar.
A hesitação do padre em se envolver novamente faz sentido humano e dramático. Um homem de fé que foi testado e falhou, que carrega no corpo e na memória o peso de não ter sido suficiente, essa ferida poderia dar à narrativa uma dimensão trágica real. Mas o roteiro trata esse backstory como cartão de visita, não como motor da história. O trauma aparece, é citado, e então é varrido para debaixo do tapete para que o padre possa simplesmente... funcionar como recurso narrativo para o exorcismo final.
É uma oportunidade rara de construir um protagonista complexo, dividido entre a fé e o medo, entre o dever e a culpa, e o filme a descarta com uma leveza que chega a ser desconcertante.
A criatura de As Faces do Demônio tem, no papel, tudo para ser aterrorizante. Sua natureza mimética, capaz de copiar qualquer membro da família com perfeição, implica uma onipresença que deveria contaminar cada cena, cada diálogo, cada troca de olhar. Nunca se sabe quem é real. Nunca se sabe se o alívio é armadilha.
O melhor terror não está no monstro que aparece, está no monstro que pode estar em qualquer lugar. A Aflição (2016), de Na Hong-jin, entendeu isso com profundidade: seu demônio nunca precisa ser visto para aterrorizar, porque a dúvida sobre sua presença já é suficientemente devastadora. As Faces do Demônio começa a trilhar esse caminho e, no meio da jornada, recua. O demônio passa a aparecer de forma cada vez mais convencional, a tensão da imitação é abandonada, e a criatura perde seu poder mais singular.
O efeito mais perturbador de um demônio que imita rostos não é o susto, é a erosão da confiança. Quando o filme abre mão disso em favor de confrontos diretos, abre mão também de sua identidade.
O roteiro desmorona em:
Furo nº 1
O padre que desliga na cara dura
O pai liga em desespero para o irmão padre. Em vez de explicar a emergência, adia tudo para "pessoalmente". O padre diz que está saindo do país, e ninguém insiste. A família em pânico simplesmente aceita e fica em casa.
Furo nº 2
A regra criada para ser ignorada
O padre chega por "pressentimento" e decreta: fiquem juntos. Menos de cinco minutos depois, ele mesmo manda uma das irmãs descer sozinha ao porão para buscar crucifixos. A própria regra é quebrada por quem a criou.
Furo nº 3
A irmã que sumiu do roteiro
A irmã do meio é morta pelo demônio no porão, e absolutamente ninguém na família sente falta dela. Ela não é mencionada, não é lamentada, não é procurada. Simplesmente deixa de existir também para o roteiro.
Furo nº 4
O exorcista que cai no truque mais óbvio
Um padre que já enfrentou esse demônio antes, e perdeu para ele, cai imediatamente quando a criatura usa a voz inocente de uma criança pedindo socorro. A mesma armadilha. O mesmo homem. Nenhum aprendizado.
O potencial desperdiçado
Imagine um filme onde o trauma do padre o torna simultaneamente o mais preparado e o mais vulnerável para enfrentar esse demônio específico. Onde a onipresença da criatura desgasta a família de dentro para fora, tornando impossível confiar em qualquer abraço, qualquer palavra de conforto. Onde a fé é testada não por um monstro, mas pela dúvida de que talvez Deus já tenha perdido essa batalha antes. Esse filme existe no interior de As Faces do Demônio, e nunca chegou a ser feito.
A cena de exorcismo que encerra o filme deveria ser o momento de catarse de tudo que foi construído, o confronto do padre com seus próprios fantasmas, o demônio finalmente exposto sem máscaras, a família reunida numa última resistência. O que o espectador recebe, no lugar disso, é uma sequência arrastada, repetitiva, que não sabe quando terminar.
Os efeitos especiais, já modestos ao longo do filme, atingem seu ponto mais baixo aqui. A representação visual do demônio, uma fumaça espessa que serpenteia pelo porão, arranca, involuntariamente, mais sorrisos do que arrepios. É um fim que envergonha as boas intenções do começo.
As Faces do Demônio é um filme que conhece seus ingredientes e não sabe cozinhá-los. Tem um demônio com poder genuíno, um padre com uma ferida real, e uma premissa que poderia sustentar um dos melhores títulos do terror coreano recente. Mas o roteiro abandona cada um desses fios antes de completá-los, substituindo profundidade por movimentação, e tensão psicológica por sustos cada vez mais rasos. O resultado é um filme que começa como promessa e termina como oportunidade perdida, e não há nada mais frustrante no cinema do que isso.
Nota: 3,0/10
★★★☆☆☆☆☆☆☆




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